Pittsburgh Penguins Visita a Casa Branca

e Tudo de Errado que Aconteceu

Em primeiro lugar, esse é um texto sobre esporte, política e sociedade. Você queira ou não, tente separar tudo ou não, a verdade é que o esporte e a política pertencem a sociedade, eles se encaixam num contexto social e isso vale em toda e qualquer sociedade. Quantas vezes não lemos ou ouvimos “a política não se envolve com esportes e vice-versa”? Essa é uma mentira, uma mentira que é repetida diversas vezes e podemos vê-la sendo usada por atletas, dirigentes, políticos e jornalistas, por pessoas numa conversa de bar, em casa, lemos e ouvimos isso nos diversos contextos como se fosse a realidade, mas não é, está tudo integrado em alguns níveis. A política é praticada o tempo todo em todos os níveis da sociedade, dos corredores do Congresso Nacional até o ambiente familiar em que vivemos, muito de nossa vida depende daquilo que chamamos de política. Uma das definições do Dicionário Aurélio sobre Política: “Modo de haver-se, em assuntos particulares, a fim de obter o que se deseja.” (Fonte: https://dicionariodoaurelio.com/politica), ou seja, quem nunca teve que negociar para conseguir qualquer coisa na vida? Quem nunca se posicionou, seja conta ou a favor, ou mesmo se manteve neutro, em relação a qualquer assunto? Todos somos políticos, por mais que em nossa sociedade atualmente isso tenha se tornado praticamente uma ofensa ser político.

“Eu apenas cresci assumindo que isso (política) não era algo que se misturava com esportes… De minha parte, não há absolutamente alguma política envolvida.” Essas foram as palavras de Sidney Crosby na véspera da visita do Pittsburgh Penguins a Casa Branca. A equipe de Pittsburgh visitou o presidente Donald Trump na tarde dessa terça feira, 10/10/2017, o que se pôde ser visto foi um evento estranho e completamente carregado de um clima praticamente vergonhoso por parte não só dos que estavam lá, mas da NHL também. Parecia haver uma espécie de arrependimento pelo evento, não houve a tradicional camiseta dada pelo time ao presidente personalizada para este e nem a foto com a Stanley Cup, a cobertura por parte das redes sociais tanto do Pittsburgh Penguins e da NHL foi nula, diferente do que vimos em outros anos. As palavras de Sidney Crosby na terça-feira foram contraditas com o que aconteceu na quarta-feira, após um boicote de muitos jogadores do New England Patriots na visita da equipe e uma recusa dos jogadores do Golden State Warriors a visitarem enquanto Trump for o presidente, a visita do Pittsburgh Penguins tomou outra dimensão, uma dimensão que poderia ter sido completamente evitada.

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Você vê sorrisos, mas a absoluta maioria deles não é natural (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

Sim, tudo isso teria sido evitado se o time recusasse, ou houvesse uma liberação por parte da gerência como aconteceu no caso do Patriots, ou, por outro lado, se toda a tradição tivesse sido cumprida. Se o Pittsburgh Penguins tivesse presenteado o presidente dos Estados Unidos com a camiseta personalizada e tirado a foto oficial, a discussão era outra, mas não, eles tinham que aprontar esse papelão. Sim, foi um papelão, criou um clima estranho e desconfortável, a ideia de tentar se manter apolítico foi um erro de leitura do contexto atual que existe nos EUA e os jogadores sentiram isso na pele.

O posicionamento oficial da NHL foi sempre de tentar ser apolítica, mas a verdade é que a liga é completamente política por parte de seus donos, para exemplificar: em 2008 Sarah Palin, então candidata a vice-presidente, fez o puck drop cerimonial em uma partida entre St Louis Blues e Los Angeles Kings (pode ser visto aqui). E Palin não foi a única política em campanha a fazer isso e nem foi a última, “não somos políticos”, mas deixamos candidatos fazerem eventos de destaque durante a campanha. A verdade é que a NHL sempre reprimiu os jogadores, mas os donos de franquia sempre tiveram liberdade para fazerem o que bem entenderem.

Existe um contexto de luta por visibilidade e igualdade de gênero, racial, respeito pelo que as pessoas são, um contexto de integração social daqueles que são reprimidos e excluídos pelo que nasceram, em que pessoas são covardemente assassinadas em atos extremos de racismo, onde há uma ampla campanha de conscientização, há também uma campanha de reação e repressão pela manutenção do status-quo social. É um contexto onde não tem como permanecer neutro, esse foi o erro de leitura do Pittsburgh Penguins (dono e gerentes), e muito provavelmente da NHL também, no momento em que eles tentaram dissociar essa visita com o que acontece no país, eles tomaram uma posição. Vale destacar o comunicado emitido pelo presidente Donald Trump após a aceitação oficial do Pittsburgh Penguins ao convite, Trump usou completamente do contexto político para elogiar a atitude da franquia.  A organização Pittsburgh Penguins, seus donos, gerentes, funcionários, jogadores, eles não vivem em um universo a parte, eles vivem em um país onde há um enorme debate sobre os problemas da sociedade, sejam americanos, canadenses, alemães, finlandeses, suecos ou russos, eles estão dentro desse turbilhão também.

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O mesmo Pittsburgh Penguins, com Gary Bettman, junto ao ex-presidente Barack Obama em 2016 (Foto: Chip Somodevilla/Getty Images)

Ora, o Pittsburgh Penguins não se pronunciou sobre política, certo? Sim, porém há um contexto que volta aos boicotes de alguns jogadores do New England Patriots e do Golden State Warriors como um todo, um contexto que parece ter sido ignorado por quem é que tenha tomado a decisão de que o Penguins deveria visitar a Casa Branca e Donald Trump, como disse anteriormente, um erro de leitura. No momento em que o Pittsburgh Penguins se pronunciou afirmando que iria e que todos seus jogadores iriam, ele tomou uma posição e as atitudes dizem mais que as palavras, e pelo que vimos, os jogadores em sua maioria não estavam a vontade naquela visita. Eu não sei se houve alguma pressão por parte da gerencia do time ou da liga para que os jogadores comparecessem, se não houve pressão muitos deles estavam arrependidos.

Vale ressaltar que a NHL vive um contexto muito diferente da NFL e da NBA, em primeiro lugar a maioria dos jogadores vem de famílias de classe média, muitos deles viveram em uma família estável, em um ambiente muito seguro, a maioria vem de outros países, para eles essa luta social que acontece nos Estados Unidos parece coisa de outro mundo. Outro fator é que apenas 30 jogadores da NHL ativos nesse momento são de origem africana (negros), eles são menos de 1 por franquia, em contraste com as outras ligas citadas. Vemos protestos por parte de atletas da NBA e NFL por conta da ainda existente violenta perseguição racial, de alguma forma, na NHL o único até agora a fazer isso foi J.T. Brown, do Tampa Bay Lightning, que levantou o punho, o famoso sinal dos Panteras Negras, durante o hino nacional, um protesto que foi respondido com ofensas e ameaças para ele. Esse é o contexto social que os negros vivem nos Estados Unidos (no Brasil também, vale o comentário), por isso os protestos, por isso a recusa da visita da Casa Branca enquanto Donald Trump, que já disse coisas ofensivas e abomináveis, for presidente por parte do Golden State Warriors e outros atletas, por isso o conflito social em evidência. Foi nesse contexto que o Pittsburgh Penguins se meteu ao tentar não se meter, no momento em que foram contra a corrente dos atuais campeões da NFL e NBA, eles se posicionaram, esse é um contexto extremo em que não há como ficar neutro ou apolítico, normalmente não é assim que as coisas funcionam, mas existem casos em que isso acontece, não é regra e sim exceção. O problema todo não foi se posicionar, mas sim em falar que nada daquilo era político enquanto havia um contexto em que o contrário era exposto, o Pittsburgh Penguins poderia sim ter ido a Casa Branca, dado a camiseta para Trump, tirado a foto oficial, mas foi uma visita incompleta e que deixou uma impressão de arrependimento por parte de quem estava presente.

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J.T. Brown se une ao protesto iniciado por outros atletas levantando o punho (Foto: Matias J. Ocne/Miami Herald/TNS)

Citando o Dicionário Aurélio novamente: “Modo de haver-se, em assuntos particulares, a fim de obter o que se deseja.”, assim se define política. Primeiramente, a NHL e o time campeão ganham visibilidade ao visitar o presidente dos EUA, essa visibilidade atrai curiosidade e atenção, ou seja, é também uma autopromoção. Eles estão conseguindo algo que se deseja com a visita, certo? Para isso tiveram que se haver em assuntos particulares para isso acontecer, certo? Política. A NHL e o Pittsburgh Penguins concederam em favor do Trump, mesmo podendo criar uma reação contrária a isso, para conseguir algo em troca, se isso não é política, política nem existe. Não há nada de errado em praticar a política, o que há de errado nesse caso é você fazer e dizer que não faz.

Donos de times e comissários da NHL tentam separar as coisas, mas não é assim que a vida funciona na realidade, e quando fazem isso ou eles estão mentindo ou desconhecem como a sociedade que vivem funciona. O esporte e a política estão dentro da sociedade, eles não existem a parte, e como tudo o que está dentro da sociedade, os dois se integram em alguns níveis, faz parte das relações que nos definem como civilização. A posição dos comissários e donos de equipes da NHL é completamente irreal e hipócrita, porque vale tudo para eles, mas nada para os jogadores, tenha a posição política que for, inclusive a neutralidade, mas não tente dizer que é apolítico, simplesmente é impossível. A NHL se posiciona de um modo que perpetua práticas velhas e ultrapassadas, e não só nesse caso, o Pittsburgh Penguins apenas foi um meio de isso ser demonstrado outra vez. Talvez um dia isso mude, mas até isso acontecer vai demorar muito e sempre veremos a liga tentar calar as vozes que vão contra suas práticas, seja quanto a participação nas Olimpíadas, ou em questões mais profundas quanto a sociedade.

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