Sangue, punhos, honra e copas. Colorado Avalanche e Detroit Red Wings

 “Nenhum traço é mais justificado do que vingança no tempo e no lugar certo” – Meir Kahane

Spoiler: Esse é um post bastante longo então leia com carinho e com um copo grande de café do lado porque café é sempre bom. Além disso, as mais de 5700 palavras desse post não terão a intenção de fazer o amigo e a amiga que nos acompanha a gostar de lutas no esporte. Estaremos contando uma bela história composta por grandes jogadores, grandes partidas e principalmente, seres humanos e seus sentimentos. Esperamos que os senhores e senhoras aproveitem essa viagem.

Antes de Claude Lemieux esmagar metade do rosto de Kris Draper nas bordas ou de Patrick Roy e Mike Vernon trocarem socos no meio da Joe Louis Arena como dois velhos atiradores do faroeste e de todas outras batalhas que Colorado Avalanche e Detroit Red Wings protagonizaram ao longo dos anos, o ato de lutar já existia no jogo de hóquei e consequentemente na NHL. E é por esse ponto que vamos começar.

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Os velhos dias…. (Créditos: The Post Game)

Devemos lembrar que o elemento “troca de gentilezas usando punhos fechados” (esse pobre homem fez um grande esforço procurando sinônimos para luta e briga ao longo desse post, vejamos quanto conseguiremos usar) já existe na NHL desde o distante ano de 1918 e no esporte em geral desde o fim do século 19. E as estrelas lutam, não nos esqueçamos disso. Bobby Orr já trocou carinhos com diversos jogadores tentando se defender, Mario Lemieux brigou em seu segundo jogo na NHL. E quando você consegue um gol, uma assistência e uma briga numa partida, você é agraciado com o “Gordie Howe hat-trick”. Gordie Howe.

Seu silêncio não irá lhe proteger”
Andre Lorde

Esse é talvez o maior motivo (ou na visão de muitos e muitas, o único motivo racional) pelo qual você troca socos com alguém no meio de um rink. Proteção. Se proteger. Proteger o companheiro de time (Imagine: o que seria de Johnny Gaudreau em uma briga com Zdeno Chara se não fosse Deryk Engelland). Até mesmo proteger sua franquia. A ideia de proteção através das lutas vem desde o início do século XX. Antes, os jogadores lutavam porque não existiam regras que punissem o excesso de jogo físico no esporte e já que não existe nenhuma regra que me salve dos leões, matarei eles eu mesmo. No início das disputas, o passe do disco para frente só era autorizado na zona neutra do rink (espaço entre as duas linhas azuis que foram criadas em 1918), essa configuração fazia com que as estrelas daquele tempo tivessem de se envolver duramente no confrontamento físico, os deixando vulneráveis aos cheap shots alheios.

E assim nasceram os valorizados, amaldiçoados e mais 30 adjetivos (positivos e negativos) que são destinados aos enforcers. Os jogadores que se encaixavam nesse “trabalho” tinham três funções: Lutar, intimidar e proteger. As três coisas que podemos ver hoje de alguma forma. As lutas passaram a fazer parte das regras oficiais do esporte em 1922 quando foi criada a regra 56. No rulebook atual da liga, a troca de elogios através dos membros superiores é regulamentada pela regra 46.

Marty McSorley jogou a grande parte de sua carreira ao lado da grandeza de Wayne Gretzky. Sua função era a mais simples possível: Proteger o camisa #99 de tudo e todos. Ao participar do documentário “The Code” produzido pela TSN em 2009 sobre as lutas no esporte, McSorley foi categórico ao afirmar que jogadores como Gretzky Lemieux e Sakic teriam carreiras bem menores se não fossem seus protetores.

“Em um esporte individual, sim, você precisa vencer títulos. O beisebol é diferente. Mas basquete, hóquei? Uma pessoa pode controlar a velocidade da partida, pode alterar completamente o momento de uma série. Isso requer um enorme talento individual.” – Kobe Bryant

Nem só de proteção são feitas as lutas. Trocar cortesias através dos dedos fechados são usados em diversas oportunidades buscando mudar o momento do jogo. Se seu time estiver perdendo por 0-3 no 1* período de uma partida decisiva, qualquer coisa a seu favor pode mudar o momento do jogo, as lutas são uma dessas coisas. Pode dar miseravelmente certo quando você ganha a luta, isso já aconteceu diversas vezes em playoffs (ver: Penguins 5-3 Flyers, 2009, jogo 6 do 1* round) mas quando você perde a luta, é quase um tiro fatal.

“Quem diz que não gosta das lutas na NHL deve estar fora de si” – Don Cherry

Mesmo como elemento real nas partidas, as lutas tomaram um outro nível na metade da década de 70, quando nasceu o Broad Street Bullies também conhecido como Philadelphia Flyers 73-74 e 74-75. Liderados pelo talento de Bobby Clarke e os punhos frenéticos de quase metade do time, principalmente os de Bob Kelly e Dave Schultz, o Flyers faturou as copas de 74 e 75. Mais do que qualquer outro time na história do esporte, o Flyers intimidou seus adversários e muitas vezes o fazia mais com os punhos do que com o puck. E diferente do que aqui foi falado, o Flyers lutava por qualquer coisa contra qualquer jogador em qualquer momento do jogo. Logicamente, os torcedores do Flyers não vão chorar sobre o fato de sua equipe ser considerada a mais suja da história e não ligam pro fato de seu time ter “começado” um ponto na liga onde pelos próximos 25-30 anos, os punhos seriam tão importantes quanto os gols.

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Mesmo com um bom time no gelo, o Flyers dos anos 70 foi consagrado pelos punhos. (Créditos: The good point)

“A menos que você conheça o código, ele não tem significado” – John Connoly

Assim como quase tudo na vida, as lutas também tem seus códigos. Diferente de quase tudo na vida, esses códigos não estão escritos em algum lugar. Por muito tempo as regras do confrontamento entre dois jogadores foram um mistério para torcedores e torcedoras. Uma parte desse mistério foi “revelado” (ou confirmado) quando o livro “The Code: As regras não escritas da luta e da retaliação na NHL” foi lançado em 2010. Quem se envolve em uma briga e conhece o código, saberá quem desafiar, quando desafiar, o motivo do desafio e outras variáveis (nem sempre lógicas) de quando dois homens barbados resolvem trocar socos por algum motivo.

Depois de todo esse papo sobre lutas, vamos de verdade ao encontro de nossa história.

“Eu amo o nome da honra, mais do que temo a morte” – Julio Cesar

02/12/1995, Montreal Forum. Onde nossa história começa antes mesmo de ter começado. O Red Wings era mais uma vez favorito a ganhar a Stanley Cup e estava ma parte inicial daquela que seria a melhor temporada estatística da história da liga. Já o Canadiens tinha uma equipe interessante e o maior goleiro da história entre os postes, Patrick Roy. O que tinha tudo para ser um jogo interessante no velho Forum, acabou se tornando em um dos blowouts mais significativos da história e um dos sábados mais miseráveis do Canadiens. Liderados pelo Russian Five (Vladimir Konstantinov, Slava Fetisov, Slava Kozlov, Igor Larionov e Sergei Fedorov), o Red Wings fez um, dois, quatro, cinco, sete, NOVE gols em 32 minutos contra um Patrick Roy indefeso e uma torcida chocada com o massacre que acontecia diante de seus olhos. Após o nono gol do Red Wings, Roy decidiu que tinha visto demais para um sábado a noite e se retirou da goleira, MERCY ON ME deve ter pensado o #33. Em seu caminho para o banco, Roy não tirou a máscara mas através dela, olhou para Mario Tremblay (em sua 1* temporada como treinador do Canadiens) como se quisesse matar o mesmo com seu próprio stick e se dirigiu para o corredor dos vestiários para deixar seu equipamento. Minutos depois, ainda tomado pelo ódio da vergonha que acabará de passar (o jogo acabou 11-1 Red Wings), Roy deu alguns passos se dirigindo ao presidente do Canadiens, Ronald Corey, que estava sentado na primeira fila atrás do banco e disparou as seguintes palavras: “Esse é meu último jogo em Montreal”. Tais palavras caíram como uma bomba nos colos de Tremblay, Corey e Réjean Houle (GM do Canadiens). 4  dias depois, Roy foi trocado junto com o capitão Mike Keane por Andrei Kovalenko, Martin Rucinsky e Jocelyn Thibault. Sua nova casa? O recém criado Colorado Avalanche, conferência oeste, lugar de domínio de seu novo inimigo mortal, Detroit Red Wings.

“Sucesso é a melhor vingança” – Vanessa Williams

Roy era para o Avalanche o que um grande piloto é para um carro de fórmula 1. A última peça para a glória. O time tinha juventude em Joe Sakic, Peter Forsberg, Sandis Ozolinsh, Adam Deadmarsh e Adam Foote, a experiência de bons jogadores como Uwe Krupp, Valeri Kamensky e Scott Young. E o talento para ser peste e igualmente decisivo do principal personagem de nossa história, Claude Lemieux.

“A grandeza de um superherói será sempre seu inimigo” – David Wyons

Esse escrito não é necessariamente sobre heróis e vilões ou quem ocupou tais cadeiras durante os embates entre Avalanche e Red Wings. Mas cá entre nós, o senhor e a senhora que nos lê nesse momento já decidiu (ou decidirá em algum instante ao longo desse escrito) qual rótulo dará a cada nome que aparecer aqui. Se você torce para o Colorado Avalanche, não tenha vergonha de dizer que Claude Lemieux foi um de seus heróis porque de fato ele foi. Em sua 1* temporada no Colorado, a super peste teve a 2* melhor temporada de sua carreira com 39 gols e foi peça, infame ou não, crucial na conquista da 1* Stanley Cup do Avalanche. Em 5 temporadas no Colorado, Lemieux chegou em 4 finais de conferência, algo impossível nos dias de hoje para um time recém realocado. Apesar de todos seus pecados, e Deus sabe quantos muitos Lemieux cometeu dentro do gelo, o camisa #22 “colocou” o Avalanche no mapa.

Se você torce para os outros 29 times da liga (yeah, i’m looking for you, Vegas fans!), se sintam livres para amarem ou odiarem Claude Lemieux da forma que desejarem. Essa peste ganhou 4 Stanley Cups na carreira, 3 delas em 5 anos, duas delas inéditas com times diferentes em anos seguidos. É certo dizer seu amor ou seu ódio ao camisa #22 apenas adicionará mais um nome a lista.

Mas se você torce para o Detroit Red Wings, você deve odiá-lo. Não é uma questão de querer odiar ou não, você deve e ponto. Não é algo que se escolhe. You just do it. 

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        “Se você odeia uma pessoa, você odeia algo nela que faz parte de você mesmo” – Hermann Hesse

Claude Lemieux não precisava fazer tanta força para ser odiado. Aliás, força nenhuma. Utilizando o velhíssimo clichê, Lemieux foi um jogador que você adoraria ter em seu time mas odiaria tanto ele no time adversário que seria capaz de cortar seu pescoço com uma faca de serra. Detroit odiou (e todos outros adjetivos negativos) Claude Lemieux por dois anos, não por seu time ter algo de Lemieux em si, mas sim pelo fato do camisa 22 ser o símbolo de algo que foi tirado das mãos de uma cidade que esperava pela Stanley Cup a mais de 40 anos.

24/06/1995, Brendan Byne Arena, Jogo 4, Stanley Cup Finals. (Assim como 02/12/1995, a história que começa antes mesmo de começar) Esse dia representaria o capítulo final de um dos upsets mais surpreendentes da história da liga. O favoritíssimo Detroit Red Wings, abarrotado de uma coleção de futuros Hall of Famers era varrido de forma acachapante por um Devils com um poder de fogo bem menor mas que soube fazer seu adversário com status de favorito pagar por todo e qualquer erro cometido durante a série. Não importava o quão bom o Red Wings fosse, aqueles diabos (com o perdão do trocadilho cretino) faziam você cometer erros e eles aproveitariam. Enquanto Scotty Bowman e suas estrelas amargavam outro fracasso de proporções homéricas, o Devils celebrava sua primeira Stanley Cup e o MVP daquela conquista era, como deveria ser, number 22, Claude Lemieux.

Depois da conquista, Lemieux foi trocado para o Colorado Avalanche, um jovem time que estava em busca de peças experientes e vencedoras para ajudar o time a vencer.

E então aconteceu 02/12/1995.

E Patrick Roy (re)encontrou Claude Lemieux. (Custa nada lembrar, Lemieux e Roy venceram a Stanley Cup de 1986 com o Montreal Canadiens)

E ambos encontraram o Detroit Red Wings na final da conferência oeste em 1996.

Como deveria ser.

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Guardem esses rostos. E seus respectivos punhos. (Créditos: Sporting News)

“O destino não é uma questão do acaso. É uma questão de escolha. Não é uma coisa para ser esperada, é uma coisa a ser alcançada” – William Jennings Bryan

(Os próximos nove pontos são divisões teatrais de um espetáculo da vida real. O teatro não é nem de longe minha praia, então perdoem esse pobre homem caso ele vacile)

ATO 1 – TESTA NO GELO E O SOCO

23/05/1996, McNichols Sports Arena, Denver, Jogo 3, Finais da conferência oeste.

O Red Wings havia vencido 62 partidas na temporada regular e era (quase indiscutivelmente) o maior favorito da história a ganhar o grande prêmio antes da dança começar. A troca de gentilezas entre as equipes já tinha começado de forma discreta nos jogos 1 e 2 em Detroit, ambos vencidos pelo Avalanche, com sticks gentis nas pernas protagonizados pelo goleiro Chris Osgood e Claude Lemieux. Sim, apesar de ser apenas um no gelo, Lemieux conseguia se multiplicar e estar presente em todas as confusões. Mas foi o jogo 3 que começou a esquentar o clima. O Red Wings precisava vencer a peleja para evitar o que naquela altura seria um invirável 0-3. Durante o segundo período, Adam Foote e Slava Kozlov foram disputar o disco nas bordas, Foote iria encerrar o hit em Kozlov, espremendo o russo de cara por gelo. Foote não contava com a destreza de Kozlov em evitar o hit e mandar sua cabeça contra a proteção das bordas com a mesma velocidade que você mata um mosquito na parede. Foote ficou por alguns segundos sem se mover no gelo, quando ficou de joelhos e com o médico do Avalanche limpando o corte de sua testa, Foote lançou suas luvas e seu capacete no gelo com uma revolta fora do comum. A resposta da gentileza viria ainda naquele período. Após uma defesa de Patrick Roy, todos os jogadores resolveram se congregar e criar laços de amizade atrás do gol, enquanto a troca de elogios era feita, Kozlov fez um pequeno carinho na nuca de Sandis Ozolinsh, essa foi a senha para Claude Lemieux decidir que tinha visto demais do russo. Mineiramente, deu dois passos para trás e BINGO! Acertou Kozlov com uma direita de dar inveja aos boxeadores modernos, o pobre Slava nem viu de onde veio o torpedo. Um sucker punch de digníssimo respeito. O Red Wings venceu aquela partida por 6-4 e pelo soco em Kozlov, Lemieux seria suspenso por uma partida. (Incidente a partir dos 04:20)

ATO 2 – THE VLADIATOR

27/05/1996, Joe Louis Arena, Detroit, Jogo 5, Finais da conferência oeste.

Apesar de parecer um episódio pequeno mediante toda desgraça que ainda ocorreria nos próximos dias (e anos) entre esses dois times, esse jogo tinha seu significado. Mesmo sem Lemieux, o Avalanche bateu o Red Wings por 4-2 e colocou uma vantagem de 3-1 na série. O jogo 5 marcava não só a volta da super peste a lineup mas também a primeira chance do Avalanche garantir seu lugar na Stanley Cup Finals. Mas não foi assim que a noite se desenrolou. Dominando todo o jogo, o Red Wings bateu o Avalanche por 5-2 e viveu mais um dia na série. A primeira vingança contra Claude Lemieux conquistada no gelo da Joe Louis Arena foi cortesia do russo Vladimir Konstantinov. No segundo período, Lemieux entrava com o disco na zona ofensiva quando viu seu mundo rodar (literalmente) graças a força nada natural do camisa 16.

ATO 3 – O HIT

29/05/1996, McNichols Sports Arena, Jogo 6, Finais da conferência oeste. 14:16 do primeiro período.

Draper is hurt. He got leveled by Claude Lemieux. And he is down on the ice.

O jogo 6 era a segunda chance do Avalanche garantir sua vaga na Stanley Cup Finals ou encarar o teste gigantesco que seria vencer um jogo 7 na Joe Louis Arena. O placar já marcava 1-0 em favor do Colorado Avalanche quando o incidente aconteceu. Draper tinha o disco na zona neutra e estava na espera de seus companheiros de linha saírem da condição de offside. Draper nunca viu Lemieux chegar e lhe esmagar contra as bordas. Ambos deixaram o gelo depois do lance, Lemieux foi expulso da partida enquanto Draper foi ajudado pelo médico do Red Wings e por Keith Primeau. Ao usar a palavra esmagar, o seu uso é no sentido literal. De fato, Claude Lemieux esmagou o lado direito do rosto de Kris Draper. Foram 4 ossos quebrados, incluindo nariz e queixo. Quando voltou para Detroit, Draper ficou 4 dias no hospital, não comeu nada sólido por longas seis semanas e só voltou ao gelo na metade da temporada 96-97. Sem ambos no gelo, o Avalanche bateu o Red Wings por 4-1, garantindo sua ida a Stanley Cup Finals.

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“Eu não acredito que apertei a mão daquele cara depois do jogo”

A famosa frase de Dino Ciccarelli depois do jogo marcou a revolta dos jogadores do Red Wings com o camisa 22. Os companheiros de Draper só souberam da gravidade da lesão após a partida. Lemieux, obviamente, se defendeu. Disse que obviamente iria se defender e não viu nada de anormal no hit. Ainda disse que já tinha aplicado outros hits com jogadores naquela mesma posição de Draper e nada de tão grave tinha acontecido. Já Kris Draper não poupou palavras para criticar o hit, apesar de usar uma certa politica para o fazer. Resumindo tudo em uma fase: “Esse é um jogo de hóquei e olhe para meu rosto”. Mas foi outra frase dita por Draper que chamou minha atenção e acabou sendo de alguma forma profética: “Infelizmente isso aconteceu. Mas espero que algo de bom possa vir disso.”

12 dias depois, Claude Lemieux e o Colorado Avalanche ganhariam a Stanley Cup, varrendo o Florida Panthers. Lemieux foi suspenso por dois jogos e multado em mil doláres, mas ainda assim saiu “por cima”.

“É impossível sofrer sem fazer alguém pagar por isso” – Friedrich Nietzsche

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26/03/1997

Joe Louis Arena.

“Eu estacionei na arena aquela noite e o cameraman me acompanhou do meu carro até o vestiário. Os cameramens nunca me acompanhavam. Eles sempre acompanhavam Yzerman ou Fedorov. Foi quando eu soube: vamos nessa.” – Kris Draper

As almas que foram a Arena naquela noite queriam duas coisas. A primeira era a vitória, já que o Avalanche tinha vencido todos os confrontos entre as equipes na temporada regular e vencido 7 das últimas 9 partidas (se contado os playoffs de 96). Era a última chance de tirar uma casquinha do atual campeão e melhor time da NHL antes dos playoffs começarem. E de quebra, se possível, cada Red Wing que estava na arena desejaria levar um pedaço da cabeça de Claude Lemieux pra casa. Apesar de não ser um jogo de playoff, a tensão existente naquele confronto, a cobertura da imprensa e tudo mais que cercou aquela partida deu a entender que era um jogo 7 disputado no final de março.

“Todo soldado deve saber antes de ir pra batalha de como as pequenas lutas influenciam na batalha como um todo e como o sucesso dessa pequena luta pode influenciar na batalha toda” – Bernard Law Montgomery

As pequenas lutas daquela noite foram protagonizadas por Danny Pushor e Brent Saborin que depois de um hit estranho e um offside, decidiram iniciar os trabalhos daquela que seria uma noite épica. Depois disso, Wayne Corbet e Kirk Maltby protagonizaram uma luta de um soco e um longo abraço separado com alguma complicação pelos árbitros. E então….

…. Nicklas Lidstrom tenta um passe para Darren McCarty que não controla o puck, o disco sobra para Igor Larionov que é lançado contra as bordas por Peter Forsberg. Forsberg tentou um carinho extra contra Larionov, levando o russo a trocar punhos com o camisa #21.

E assim foram abertas as portas do inferno.

Enquanto os juízes tentavam separar o abraço nada fraterno entre Larionov e Forsberg, McCarty se desvencilhou da “marcação” de Valeri Kamensky, achou o destraido Claude Lemieux e lhe acertou uma bela direita na ponta do queixo, levando o camisa 22 ao gelo e provocando o maior orgasmo coletivo que se tem noticia em um evento esportivo. 301 dias depois, McCarty dava a cidade de Detroit o que ela queria. Sangue. Mas não qualquer sangue. O sangue de seu pior inimigo até aquele dia. Por algum motivo não identificado por minha pessoa, Lemieux preferiu se defender fazendo a posição da tartaruga (como meu amigo Thiago Farias aka @hoqueifanatico gosta de falar, Claude the Turtle) do que lutar contra o furioso McCarty que lhe aplicava uma bela sova.

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A sova e a tartaruga. (Créditos: The Majors)

Vendo tudo isso, Patrick Roy saiu em disparada de seu gol tentando salvar Lemieux das mãos de McCarty mas só achou um igualmente furioso Brendan Shanahan em seu caminho, os dois trocaram um fraterno abraço no ar (essa parte não é mentira, VEJAM O VÍDEO TODO) antes de irem ambos ao gelo já trocando número de whatsapp. No meio dos dois estava Adam Foote tentando defender seu goleiro e criar um 2 vs 1 contra Shanahan, o que levou Mike Vernon a também sair em disparada de sua meta e ir de encontro a Foote. No meio de tudo isso, Lemieux seguia vivo porém morto por Darren McCarty. Quando Roy foi checar a peleja entre os camisas 22 e 25 (mas principalmente ver se Lemieux ainda estava vivo), Brendan Shanahan e Mike Vernon tentavam cada um ficar com um braço de Adam Foote, Patrick Roy não pensou meia vez em se encontrar com Mike Vernon e ambos trocarem socos como se fossem dois velhos atiradores parados numa rua deserta do Texas em um filme dos anos 40, provocando assim o segundo orgasmo múltiplo das almas que estavam na Joe Louis Arena aquela noite.

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Sangue real. (Créditos: Denver Post)

Enquanto os árbitros tentavam tomar nota de toda a sucursal do inferno que tinha ali acontecido, Darren McCarty (provavelmente com algum pedaço da cabeça de Claude Lemieux em suas mãos) recebia Igor Larionov no penalty box como um pai recebe um filho depois de 20 anos morando no Alaska. Ainda no meio de tudo isso, um furioso Marc Crawford (treinador do Avalanche) gritava contra Kris Draper “você começou tudo isso!” enquanto Scotty Bowman (treinador do Red Wings) igualmente furioso gritava contra Crawford “nunca fale com meus jogadores!”

Claude Lemieux (vivo porém morto) nos vestiários. O sangue de Roy, Forsberg e Lemieux no gelo e nas toalhas da Joe Louis Arena. E a noite ainda estava na metade. E o pobre Lemieux tanto apanhou que precisou da ajuda de Deus e o mundo para chegar nos vestiários. Como se tivesse apanhado, ironicamente, de uma cidade inteira.

(Custa nada lembrar, no meio de toda essa contenda ainda tinha um jogo muito importante sendo disputado e vencido pelo Avalanche)

Depois que todo sangue foi limpo e as penalidades foram aplicadas, Adam Deadmarsh e Vladimir Konstantinov decidiram continuar a noite de prélios (outro belo sinônimo para batalhas e brigas, Deus abençoe o aplicativo dos sinônimos) entre jogadores de ambos os times. Aos QUATRO segundos so segundo período, Brendan Shanahan e Adam Foote decidiram terminar o que tinha ficado aberto no período anterior e lá foram eles. Quatro minutos depois, duas altercações simultâneas entre Mike Keane e Tomas Holmstrom na frente da goleira do Red Wings (com Mike Vernon BABANDO pra participar desse confronto) e Danny Saborin contra o veterano Aaron Ward. Em busca de vingança por Claude Lemieux, lá foi Adam Deadmarsh ter uma desarmonia com Darren McCarty. A edição especial do Clube da Luta foi “encerrada” por Danny Pushor e Uwe Krupp.

No meio de toda essa peleja, existia um jogo muito importante por ser vencido e depois do 2* período o Avalanche ganhava por 5-3. Se aquela partida não fosse vencida pelo Red Wings, de nada adiantaria tudo aquilo. O Avalanche varreria Detroit na season series e entraria com mais moral para um confronto nos playoffs.

Ainda perdendo por 5-3 na metade do último período, Sergei Fedorov disparou o disco de sua linha azul ofensiva que não foi ao gol mas encontrou Martin LaPointe livre e com metade da goleira vazia, 5-4 Avalanche.

30 segundos depois, Brendan Shanahan recebe um passe atrás do gol de Patrick Roy e tenta um backhander que é estranhamente aceito pelo goleiro do Avs, 5-5.

No overtime, Igor Larionov entrou na zona ofensiva e viu de seu lado direito Brendan Shanahan entrar voando, ao receber o disco Shanahan estava num 2vs1 e “cruzou” o disco para seu lado esquerdo onde estava um desmarcado Darren McCarty para vencer a peleja por 6-5. 26/03/1997, o dia em que tudo mudou.

Corbet. Maltby. Larionov. Forsberg. McCarty. Lemieux. Shanahan. Foote. Vernon. Roy. Deadmarsh. Konstantinov. Keane. Holmstrom. Ward. Krupp. Todos esses nomes que participaram diretamente daquela guerra (ou pelo menos tentaram colocar seus punhos em alguém) ganharam juntos 42 copas. QUARENTA E DUAS.

“Jogadores de hóquei tem a memória longa. E o melhor tempo para buscar redenção, vingança, é quando seu adversário menos espera.” – Darren McCarty

ATO 5 – AS COISAS ESTÚPIDAS

22/05/1997, Joe Louis Arena, Jogo 4, Finais da conferência oeste.

O tempo passou e os times novamente se encontraram nas finais do oeste. Diferente do ano anterior, o Avalanche era o favorito para copa dessa vez, o atual campeão e o vencedor do President’s Trophy. O Avalanche saiu na frente, vencendo o jogo 1 por 2-1 contando com um show de Patrick Roy e gamewinner de Mike Ricci (passe de, logicamente, Claude Lemieux). O jogo 2 também parecia caminhar para o Avalanche que com gol de Lemieux vencia por 2-0 até o final do 2* período quando o Red Wings respondeu com 4 gols seguidos, vencendo a partida por 4-2 e empatando a série em 1. O jogo 3 foi para o Red Wings graças a uma atuação esplendorosa de Mike Vernon para garantir a vitória por 3-2. Na entrevista antes do jogo 4, um confiante Patrick Roy disparou: “Até agora nós não mostramos nada a eles e nós não vimos o quanto eles desejam pagar o preço para vencer. Eu conheço meu time e eu sei o quanto queremos vencer. E eu sei que amanhã a noite nós estaremos mais fortes do que estivemos até agora na série”. O pobre Roy nem sabia do atropelamento que seu Avalanche tomaria. Liderado pelos russos Igor Larionov, Slava Kozlov e Sergei Fedorov além da participação especial de Kirk Maltby, o Red Wings atropelou por 6-0 mandando Roy para o banco antes da peleja acabar e também atropelou o Avs nos punhos. No final da partida, Brendan Shanahan aplicou uma bela sova no pobre Wayne Corbet, sova essa que fez Marc Crawford explodisse em fúria contra Scotty Bowman. Ao final da partida, enquanto Bowman contemporizou toda a situação, Crawford mandou “ele disse coisas estupidas e eu disse coisas estúpidas, você acaba sendo pego pela emoção do momento”.

ATO 6 – OS OLHOS MORTOS

26/05/1997, Joe Louis Arena, Jogo 6, Finais da conferência oeste.

Assim como em 1996, o favorito voltava pra casa precisando vencer o jogo 5 da série para manter o confronto vivo por mais um dia. Algo que o Avalanche fez e fez muito bem, batendo o Red Wings por 6-0. A sexta partida era a chance de ouro do Red Wings voltar as finais e de quebra, conquistar sua “vingança final” sobre Claude Lemieux. E assim foi feito, Detroit dominou a partida virtualmente inteira, abriu 2-0 graças a Martin LaPointe e Sergei Fedorov, o Avalanche chegou a diminuir mas o golpe fatal veio do stick de Brendan Shanahan mandando o disco para a goleira vazia, o Detroit Red Wings para a Stanley Cup Final e o atual campeão Avalanche para casa. De alguma forma mágica, aquilo que começou na caótica noite de 26/03/1997, foi concluído aquele dia.

“Nós ganhamos deles em seis jogos e eu consegui o que realmente queria. Eu estava na linha dos cumprimentos. Eu pude olhar cada um deles (jogadores do Avalanche) e eles estavam com os olhos mortos. Eu apertei a mão deles sabendo que eu iria para a Stanley Cup Finals e eles não” – Kris Draper

Dias depois, o Red Wings varreria o Flyers e venceria a Stanley Cup pela primeira vez depois de 43 anos.

ATO 7 – PELA HONRA, ROUND 2.

11/11/1997, Joe Louis Arena.

Não precisava ser um gênio para saber que esse confronto aconteceria mas ainda assim o registro é válido. Apesar de Darren McCarty estar devidamente vingado de Claude Lemieux e do Avalanche, a peste nunca esqueceu a sova que tinha tomando 8 meses antes. Lemieux sabia que precisava limpar sua imagem e resgatar uma parte de sua honra que ficou no gelo da Joe Louis Arena quando ele preferiu ficar de cara pro gelo ao invés de levantar e lutar contra McCarty. E então, o #22 encontrou o #25 na primeira partida entre Avalanche e Red Wings depois do título de Yzerman e companhia. E ambos ficaram lado a lado. E se olharam. E olharam. E olharam. E balançaram levemente a cabeça. E antes mesmo do disco tocar o gelo, lá estavam Lemieux e McCarty acertando suas contas. O Avalanche venceu aquela partida por 2-0.

ATO 8 – A FALSA REDENÇÃO

01/04/1998, Joe Louis Arena.

Enquanto o Red Wings estava estabelecido como favorito a conquista da copa, o Avalanche tentava resgatar momento para entrar nos playoffs. Assim como Lemieux, Patrick Roy foi outro que tomou uma bela sova no famigerado 26/03. Buscando redenção por si mesmo, Roy desafiou Chris Osgood (custa nada lembrar, Mike Vernon tinha sido trocado para o San Jose Sharks na offseason de 1997) e lá foram eles trocar caricias em uma briga que, se analisada racionalmente, não fazia sentido. Roy ganhou a luta por muito mas seu Colorado Avalanche foi eliminado no 1* round. Já Chris Osgood, viveu o céu e o inferno mas no fim levou a Stanley Cup de 1998.

ATO “FINAL” – O NOVO ENDEREÇO

As equipes se encontraram novamente em 1999. O bicampeão Red Wings era favorito contra o Avalanche e candidato a tentar algo que tinha sido conseguido pela última vez pelo Islanders nos anos 80, o tricampeonato consecutivo. Após vencer as duas primeiras partidas da série jogando em Denver (placar somado de 7-2, incluindo shutout de Bill Ranford e hits carinhosos de Peter Forsberg em Brendan Shanahan e de – LOGICAMENTE – Darren McCarty em Claude Lemieux), as asas vermelhas voltavam para casa com a faca, o queijo, o pão e o prato para encaminhar a  5* final seguida de conferência. Até que Peter Forsberg aconteceu. Escondido nas primeiras partidas da série, o sueco explodiu marcando 5 gols e 9 pontos nas 4 partidas seguintes e o Avalanche encerrou os sonhos do Red Wings no jogo 6, vencendo a peleja por 5-2 e a série por 4-2. A Stanley Cup teria um novo endereço em 1999.

Esse é o tipo de história que estranhamente todos os atores tiveram seu final feliz. Em 2000, o Avalanche trocou Claude Lemieux de volta para o New Jersey Devils por Dave Andreychuk. Nos playoffs daquele ano, Avs e Red Wings se encontraram pela terceira vez em quatro anos. Sem Lemieux, é certo dizer que o componente físico presente nas antigas diminuiu um tanto e ambos os times passaram a apostar mais em velocidade. Nesse novo script, o Avs bateu novamente o Red Wings por 4-1. O Avalanche, assim como em 99, perderia a final da conferência oeste para o Dallas Stars no jogo 7. Na Stanley Cup Final, o atual campeão Stars perderia seu título para o New Jersey Devils de Claude Lemieux em 6 jogos. Em 2001 foi a vez de Sakic, Roy e companhia conseguirem levantar a Stanley Cup depois de 5 anos, vencendo o New Jersey Devils (já sem Lemieux) em 7 jogos. Em 2002, a redenção fez morada no Detroit Red Wings. Com um elenco estrelado com quase 10 Hall of Famers (que lá estão ou lá podem estar), liderados pela forte mão (e joelho destruido) de Steve Yzerman, Detroit ganhou sua 3* Stanley Cup em 6 anos. Em 2002, Wings e Avalanche novamente se encontraram na final da conferência oeste com vitória vermelha por 4-3 na série, o jogo decisivo foi marcado por um acachapante 7-0 contra Roy e o Avalanche.

Devo confessar que esse (longo) post estava originalmente destinado a falar apenas do dia 26/03/1997. Mas durante as (longas) pesquisas para escrever esse post, entendi que essa data marca “apenas” mais uma grande memória de uma grande rivalidade que nasceu do nada (me mostre em alum lugar no qual um time recém realocado constrói uma rivalidade mortal contra um dos times mais tradicionais da história do esporte em apenas 1-2 anos) e se tornou em uma das rivalidades mais sangrentas (quase literalmente) das grandes ligas. E o atual momento de ambos os times faz desses dias, momentos mais especiais. E consequentemente, faz desse post uma reflexão mais importante. Detroit não irá para os playoffs pela primeira vez desde 1990 e o Avalanche parte para ser o pior time (estatisticamente falando) da liga nos últimos 20 anos. Comecei esse post falando sobre lutas e é sobre elas que desejo encerrar. O amigo e amiga que navegou por todas essas palavras e aqui chegou (humildimente já lhe agradeço por isso), pode odiar as brigas que ainda acontecem no esporte como eu já fiz um dia. Ou pode tentar observar essas lutas de uma forma diferente. Esses grandes jogadores lutaram por um dos motivos mais humanos possíveis: Todos eles queriam MUITO vencer. Eles lutavam porque acreditavam que isso poderia mudar o caminho de um jogo, de um playoff, de uma temporada. E qual a maior luta que existe nessa liga se não for a luta que todo jogador atravessa por 110-115 partidas até conquistar a Stanley Cup? Desejo encerrar esse longo escrito com uma reflexão de James J. Corbett: “Você se torna campeão lutando um round a mais. Quando as coisas ficam complicadas, você luta mais um round.”

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