17 x W

​Quando o Columbus Blue Jackets tocar o gelo do Verizon Center na noite dessa quinta para enfrentar Alex Ovechkin e seu Washington Capitals, a equipe terá a oportunidade de fazer (mais) história. Os comandados de John Tortorella carregam uma sequência de 16 vitórias seguidas, segunda melhor marca da história quase centenária da National Hockey League, perdendo apenas para um time. É sobre ele que vamos falar agora.

Sergei Bobrovsky é o líder da NHL em vitórias, porcentagem de defesas e GAA. Pode o russo liderar o Jackets para quebrar o recorde? (Créditos: ABC News)

A temporada era 1992-1993. Este homem que vos escreve nasceria 20 meses depois disso. O time em questão é o Pittsburgh Penguins. Vindo de um bicampeonato, o Penguins de 92-93 era o candidato número 1 a criar uma nova dinastia, sucedendo Oilers e Islanders que foram as grandes forças dos anos 80. O time era guiado pela batuta de Scotty Bowman, indiscutivelmente o melhor treinador da história. O elenco, que já contava com a presença de Jaromir Jagr (sim, ele já estava lá), tinha 4 jogadores que hoje estão eternizados no Hall da Fama: o defensor Larry Murphy, o winger Joe Mullen e os centers Ron Francis e Mario Lemieux. Além destes, a equipe também tinha ótimos jogadores como Kevin Stevens, Rick Tocchet e Tom Barrasso.

Como o atual bicampeão, o time era muito bom. Muito. Lemieux e companhia fecharam aquela temporada com 56 vitórias em 84 jogos, tendo o segundo melhor ataque e a terceira melhor defesa da liga. O powerplay do Penguins foi quase 5% melhor que a média da NHL (23.86% vs 19.57%). Com todo esse ataque poderoso, os goleiros do Penguins (e de quase nenhum time da liga naquele tempo) não precisavam (e sendo honesto, não conseguiam) ter temporadas com .920/.930% de porcentagem de defesas para irem longe, o titular Tom Barrasso (2* goleiro com mais vitórias na história do Penguins, foi ultrapassado por Marc-Andre Fleury no final de 2016) ganhou 43 das 63 partidas que disputou com uma porcentagem de defesas (nada honroso na NHL moderna) de .901% e um GAA (média de gols sofridos por partida disputada) de 3.01. Ah, o ataque desse time…

Os oito principais pontuadores do Penguins conseguiram marcar 20+ gols e 60+ pontos durante essa temporada, quatro jogadores conseguiram marcar mais de 100 pontos. Mario Lemieux (ou melhor dizendo, Mario Lemieux, o extraterrestre) marcou absurdos 69 gols e 160 em APENAS 60 partidas disputadas, uma média sobrenatural de quase três pontos por partida, algo inimaginável na NHL de hoje. Kevin Stevens (55 gols, 111 pontos) e Rick Tocchet (48 gols, 109 pontos) conseguiram algo raro na NHL de nossos tempos: marcar 20 gols no 5vs5 e no powerplay. Ron Francis deu passes para 76 gols e fechou a temporada com 100 pontos. 

Tocchet e Stevens foram peças cruciais no run do Penguins para o bicampeonato e para a streak das vitórias. (Créditos: flickr)

Já nosso amigo de sempre, Jaromir Jagr, teve uma temporada bem mais humilde: 34 gols e 94 pontos em 81 jogos disputados.

O sempre jovem Jagr já aprontava das suas em sua segunda temporada de NHL. (Créditos: Gameworn)

 A STREAK

O Penguins vinha de 4 derrotas e um empate nas últimas 6 partidas que tinha disputado, a camapanha da equipe aquela altura era de 39-21-6.

W1: A streak começou no jogo 67 daquela temporada, dia 09/03/1993 na Pittsburgh Civic Arena, casa do Penguins, com uma vitória por 3-2 sobre o Boston Bruins de Ray Bourque. Os destaques daquela peleja foram Joe Mullen com dois gols e Tom Barrasso com 32 defesas em 34 disparos. Esse jogo foi especial para o capitão do Penguins, sendo o primeiro que jogou em casa desde sua cura do câncer.

SUPER MARIO, HEY HEY! (Créditos: Gameworn)

W2: 11/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. Vitória por 4-3 no overtime sobre o Los Angeles Kings de Wayne Gretzky e Luc Robitaille. Mario Lemieux marcou quatro pontos naquela partida, Jaromir Jagr guardou dois pucks na rede incluindo o OT winner.
W3: 14/03/1993, Nassau Veterans Memorial Coliseum. Outra conquista apertada, a primeira vitória da sequência que foi conquistada em território inimigo, triunfo por 3-2 sobre o New York Islanders, o destaque daquela peleja foi Tom Barrasso com 38 defesas em 40 disparos.

W4: 18/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. A volta para casa reservou uma divertida vitória por 7-5 (como a NHL era charmosa com esses placares enormes, pobres goleiros) sobre o Washington Capitals, Mario Lemieux marcou QUATRO gols e seis pontos no triunfo.

Jogar em casa sempre foi diferença para o Penguins. 10 das 17 vitórias da streak foram conquistadas em território amigo.

W5: 20/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. Oh, dear. O Flyers do começo dos anos 90 era ruim. E o atual campeão tirou total proveito disso. 9-3 fora o baile e os ameaços, 11 jogadores marcaram pelo menos um ponto, Ron Francis e Mario Lemieux somaram para cinco gols e cinco assistencias. Esse foi um dia glorioso. Se bem que para Mario, fazer muitos gols contra o Flyers não era novidade…

W6: 21/03/1993, Oilers Coliseum. Oh, dear (x2). O Oilers depois que a dinastia se foi, também era ruim. Triunfo por seis pucks a quatro, destaque para a atuação de Ron Francis com três passes para gol e Joe Mullen com dois gols, incluindo o game winner.

Adquirido em 1990, Joe Mullen foi uma das muitas estrelas que completou o Penguins em sua caminhada do bicampeonato

W7: 23/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. Até aquela noite, o San Jose Sharks em sua primeira temporada na liga só tinha vencido 10 dos 73 jogos que havia disputado. Oh, dear (x3). Essa também foi fácil para Lemieux e amigos, 7-2 pros donos da casa com cinco pontos para o camisa #66 e quatro pontos para Kevin Stevens.

Boa proteção do puck era um dos talentos de Kevin Stevens, como fez nesse gol que marcaria segundos depois no jogo 4 das finais de 1992 contra o Blackhawks. (Créditos: Sportsnet)

W8: 25/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. Aquele Devils já tinha algumas peças que ganhariam algumas copas em um futuro nem tão distante desse 25 de março, por isso a peleja foi complicada para os donos da casa mas acabou com o mesmo resultado, 4-3 Penguins com game winner de Jaromir Jagr. Mario Lemieux com singelos quatro pontos.
W9: 27/03/1993, Boston Garden. Não existe partida complicada quando se tem Mario Lemieux ao seu lado, outra partida com 3+ pontos e game winner, vitória sobre os ursos por 5-3.

W10: 28/03/1993, Capital Center. A sequência de triunfos consecutivos alcançou os dois dígitos com vitória tranquila sobre o Capitals do ANJO Dale Hunter por 4-1. Tom Barrasso teve uma noite tranquila com 30 defesas e um certo jogador que veste um certo número (dica: 11×6 ou 33+33) com outra partida de três pontos.

Tom Barrasso não precisava ser glorioso para dar ao Penguins chances de vencer, foi isso que fez nas 5 partidas da streak que acabaram em diferença de um gol. (Créditos: Penguins Cards)

W11: 30/03/1993, Pittsburgh Civic Arena. É fato que o Senators, também em seu “primeiro” ano na liga (falaremos sobre isso no futuro) só tinha vencido NOVE (!!!) das 75 pelejas que tinha jogado na temporada mas até que eles fizeram um jogo divertido! Pena que #InfelizmenteNãoDeu e o Penguins venceu por 6-4, destaque para a atuação de Ron Francis com dois gols.

Um dos melhores setup mans da história da liga, Ron Francis era o centro da poderosa segunda linha do Penguins duranre os anos 90.

W12: 01/04/1993, Pittsburgh Civic Arena. Foi um BAITA JOGO! Ok, estou mentindo. Mas no famigerado dia da mentira, o massacre foi bem real. 10-2 Penguins no pobre Hartford Whalers (que conhecemos hoje como Carolina Hurricanes). Dos dezoito patinadores que o Penguins colocou no gelo naquela partida, apenas Grant Jennings e Kjell Samuelsson não pontuaram. Rick Tocchet marcou um hat-trick na peleja.
W13: 03/04/1993, Quebec Coliseum. VOLTA NORDIQUES! Você era lindo e o povo merece ver Canadiens x Nordiques em HD. Mas nesse dia deu Penguins por 5-3, Tom Barrasso fez 33 defesas em 36 disparos e Mario (complete aqui) com outro jogo de 3+ (complete aqui).

W14: 04/04/1993, Brendan Byrne Arena. Era engraçado o nome da arena do Devils nesse tempo. Como você já sabe, deu Penguins de novo por 5-2, contando com 2 gols e 4 pontos de Ron Francis e outro jogo de três pontos de alguém que já falamos o nome quase 66 vezes.

W15: 07/04/1993, Pittsburgh Civic Arena. O 15* triunfo da turma de Scotty Bowman foi conquistado com uma dose extra de drama. Jogando contra o futuro campeão Montreal Canadiens e um possuído Patrick Roy (de fato, foram 38 defesas do número 33 naquela noite), o Penguins contou um hat-trick de Rick Tocchet para mandar a peleja para o OT. Coube então a, acredite, ULF SAMUELSSON, ganhar a partida no tempo extra e manter a streak viva.

SAMMY, THE HERO! (Créditos: NHL)

W16: 09/04/1993, Madison Square Garden. Penguins 10-4 Rangers. Joe Mullen marcou um perfect hat-trick. Mario Lemieux marcou 5 gols.

W17: 10/04/1993, Pittsburgh Civic Arena. O último ato dessa maravilhosa caminhada foi dado em casa, jogando contra o mesmo adversário que havia massacrado 24 horas antes. Ironicamente, este foi o único jogo da streak que Mario Lemieux não pontuou. A missão ficou para Jaromir Jagr e Rick Tocchet liderarem o Penguins para vencer o Rangers por 4-2 e colocar o seu time no livro de história.

COMO ACABOU? 

14/04/1993, Brendan Byrne Arena. A streak acabou na casa do diabo. Acabou e não acabou. Confuso né? Explicando: Até 2003-2004, a NHL adotava os empates para as partidas que acabassem empatadas depois do overtime. E isso foi justamente o que aconteceu naquele dia, Devils e Penguins empataram em 6-6 com Mario Lemieux conquistando seus pontos 158, 159 e 160.

Mesmo tendo perdido 23 jogos na temporada para tratar seu câncer, Lemieux conseguiu levar o Art Ross superando Pat LaFontaine. (Créditos: Gameworn)

E DEPOIS?
De fato, o Penguins ficou 21 partidas sem conhecer a derrota. Os comandados de Scotty Bowman entraram nos playoffs daquele ano com 18 partidas sem derrota, quase 60 vitórias ao longo da jornada, 119 pontos e o título da Patrick Division. Super favorito a conquistar o tricampeonato. O primeiro round saiu como esperado: 4-1 no New Jersey Devils sem muitas dificuldades. E então veio o New York Islanders. O Penguins sofreu mas conseguiu ir para Long Island com 3-2 e a chance de vencer a série, não aconteceu. E então o confronto voltou para Pittsburgh e o derradeiro jogo 7. 3-3 no OT. Dois contra um. Cross-ice pass de Ferraro para Volek e um adeus cruel aos sonhos do tricampeonato.

STATS DA STREAK
A grande maioria do estrago feito pelo Penguins durante aquela temporada foi feita pelo sexteto Lemieux, Jagr, Francis, Stevens, Tocchet e Mullen. De fato, todos contribuíram com pelo menos um ponto em pelo menos 10 partidas da sequência. Mas cá pra nós, ninguém fez mais nessa streak que o dono da camisa #66, foram 11 partidas marcando 3+ pontos e absurdos 27 gols (!!!) e 51 pontos (!!!) em 16 dos 17 jogos. O mais próximo dele foi Rick Tocchet com 14 jogos e 31 pontos em 15 jogos. Foi mágico.

Batendo ou não este recorde, Columbus já entrou na história. Vencer 16 partidas seguidas em uma NHL cada vez mais complicada e sem empates para manter a streak viva já é uma conquista que merece ser lembrada para sempre. Ainda mais se lembrarmos que o Blue Jackets ainda nem é de maior. E se você não acredita nos “Hockey Gods”, me explique como um time que tem Curtis McElhinney de backup goalie, Jack Johnson na defesa, Scott Hartnell jogando quase de bengala, David Clarkson na IR eterna (NÃO ESQUEÇAMOS ESSE MITO) e Sam Gagner como powerplay sniper consegue 16 triunfos seguidos.

You can’t explain.

It’s hockey, baby.

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