#88

Quando você conhece um esporte novo e começa a praticar ou prefere estudar e escrever sobre o esporte, você sempre vai se inspirar em determinado jogador. Todo torcedor e torcedora de algum time da NHL já soltou aquela velha frase: “Se eu jogasse hóquei, eu queria ser que nem…”. Atualmente todos se inspiram em caras como Crosby e Ovechkin ou as novas armas como Matthews e McDavid. Como fã do esporte, confesso que prefiro os jogadores de antigamente por alguns motivos (incluindo o fato do esporte ser mais louco naquela época do que é hoje e a presença de grandes estrelas em quase todo jogo), então se eu pudesse fazer uma lista de jogadores que eu queria ser, eu com certeza seria Eric Lindros.

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BIG ERIC! (Créditos: NHL.com)

“Ele é um computador programado para matar russos”

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Lindros matava russos, americanos, canadenses e Darren McCarthy. (Créditos: NHL.com)

Essa célebre frase de Dairius Kasparatis é perfeita para decorrer o que foi Lindros durante a maior parte de sua carreira. Pra dizer a verdade, Lindros era um computador programado para matar qualquer rival que cruzasse seu caminho. Ele nem havia colocado um mísero pé na NHL mas já havia criado um baita estardalhaço. De fato, Eric era um jogador de talento único, daqueles que só aparecem de geração em geração, até por isso ele foi escolhido como primeira seleção geral do draft de 1991 pelo Quebec Nordiques. Só tinha um problema: Lindros tinha problemas com os donos do Nordiques e ele nunca iria jogar pela equipe. E assim começou a longa jornada de Marcel Aubut, um dos principais diretores do Nordiques, para trocar o grande Eric. Após um ano de insucesso em tal jornada, Aubut avisou a NHL que estava escutando propostas. E então, aconteceu um dos dias mais estranhos da história dessa liga. No dia 20/06/1992, horas antes do draft que estava acontecendo em Montreal, Eric Lindros foi trocado para dois times ao mesmo tempo. Sim, dois times. Aubut sabia da possibilidade de perder o center para outro time por nada já que Lindros avisou ao Nordiques que jogaria a temporada 92-93 fora da NHL e re-entraria no draft de 1993 (para motivo de curiosidade, Alexandre Daigle foi selecionado pelo Senators como primeira escolha daquele ano), sendo assim Aubut trocou Lindros para o Philadelphia Flyers e para o New York Rangers. Dizem as más línguas que o diretor do Nordiques tinha um acordo quase fechado com o Rangers, os patrulheiros mandariam um pacote com o goleiro John Vanbiesbrouck, defensor James Patrick e os atacantes Tony Amonte, Sergei Nemchinov, Alexei Kovalev e Doug Weight (informação do New York Times, 24/06/1992) além de dinheiro e picks mas acabou cancelando o acordo depois de receber outra proposta (na visão de Aubut, um escambo melhor) do Flyers. Diante de tal dilema, John Ziegler Jr. (Presidente da NHL naquela temporada) procurou o advogado Larry Bertuzzi para resolver a peleja. Depois de 10 dias, Lindros foi oficialmente mandado para a Philadelphia, em troca o Nordiques recebeu 15 milhões de Trumps, duas escolhas de primeiro round em 1993 e 1994, Chris Simon, Kerry Huffman, Steve Duschene, Mike Ricci, Ron Hextall e Peter Forsberg. Sim, é aquele mesmo, Peter Forsberg.

A chegada de Lindros começou a significar o renascimento do Flyers durante os anos 90. Devido a troca, a equipe ficou sem tantos talentos para complementar a presença do novo reforço, valendo a pena destacar as presenças dos (ainda) jovens Mark Recchi (53 gols, 123 pontos em 92-93) e Rod Brind’Amour (37 gols, 86 pontos em 92-93). Eric conseguiu 41 gols e 75 pontos em sua temporada de estreia na liga, o detalhe interessante é que Lindros conseguiu marcar esses 40 gols em apenas 180 chutes, tendo um aproveitamento absurdo e astronômico de 22.8%, algo impossível na atual NHL. Mesmo com esse desempenho, o Flyers ficou fora dos playoffs em 92-93. Também ficou fora em 93-94, mesmo com outra bela atuação do trio Recchi-Lindros-Brind’Amour que somaram para 119 gols e 301 pontos além da bela primeira temporada de Mikael Renberg com 38 gols e 82 pontos.

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O jovem Lindros em seus primeiros anos em Philly (Créditos: NHL.com)

E chegou o novo treinador Terry Murray para a temporada 1994-1995, ainda assim a equipe começou mal a temporada. E então coube a Bobby Clarke, GM da equipe, fazer a troca que mudou os rumos do time naquela temporada e nas próximas. Clarke mandou Mark Recchi para o Montreal Canadiens e recebeu Gilbert Dionne, Eric Desjardins e John LeClair. As chegadas de LeClair e Desjardins junto com a volta de Ron Hextall e a aquisição de Petr Svoboda mudaram completamente o destino do Flyers na temporada.

John LeClair. Eric Lindros. Mikael Renberg. Assim nasceu a Legião do Inferno.

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O trio mais perigoso dos anos 90. (Créditos: thescore.com)

Em entrevista ao NHL.com, LeClair não tem duvidas do que foi Lindros durante o tempo que estiveram juntos entre 1995 e 2000: “Não sei se alguém dominou tanto o jogo quanto ele dominou quando esteve em seu melhor. Ele dominou completamente todo aspecto do jogo. Ele foi uma força imparável”. Não só ele. Com Lindros, LeClair e Renberg se transformaram em uma linha imparável. Liderados pelo trio (únicos no Flyers que conseguiram marcar mais de 40 pontos naquela temporada), o Flyers venceu a divisão Atlântica batendo o Devils na última partida da temporada regular. Indo para os playoffs pela primeira vez em seis anos, Philly bateu o Buffalo Sabres e varreu Brian Leetch, Mark Messier e o atual campeão New York Rangers para chegar na final da conferência leste pela primeira vez em oito anos para enfrentar Martin Brodeur e o New Jersey Devils.
E então Lindros se encontrou com o que seria seu “destino” na NHL: O adversário errado, na hora errada.

Partida 5 da final da conferência leste de 1995, último minuto do último período, jogo e série empatados em 2-2. Um dos defensores do Flyers dispara o puck da linha azul ofensiva e ele não chega ao gol, na busca do disco no canto do rink, Lindros acaba perdendo o equilíbrio e assim deixa o “biscoito” limpo para Claude Lemieux sair em desabalada carreira para fazer a transição defesa-ataque, Lemieux entra na zona defensiva do Flyers e pulveriza o puck em direção ao stick-side de Ron Hextall que não conesegue alcançar. 3-2 New Jersey, 44.4 segundos para o fim do jogo 5. O Devils venceria aquela partida e também sairia vitorioso no jogo 6, dias depois varreria Steve Yzerman e o super favorito Red Wings para vencer a primeira Stanley Cup de sua história. Mesmo com a decepção do final, o camisa #88 venceu o Hart Trophy, prêmio de melhor jogador da temporada e ao receber a honraria, Lindros aod prantos disse: “Nós trabalhamos tão bem. Estamos melhorando. Vamos conseguir.”

“Antes de tudo, Eric tinha uma determinação que eu nunca vi antes. Ele sempre queria melhorar. Ele sempre esperava mais dele mesmo e de todos os outros. Nos treinos, se você perdesse uma chance, ele não tinha vergonha de chegar e dizer: Você precisa fazer esse gol. E ele falava sério. Eu sei que isso me ajudou muito e eu acho que ajudou nossa linha a se desenvolver em uma linha muito melhor […]. Junto com isso, ele era completo. Ele podia te vencer das mais variadas formas possíveis. Suas habilidades eram impossíveis de serem medidas e fisicamente ele era mais alto e mais forte do que a maioria dos caras de 1.95m e 110Kg. Tinham caras que poderiam ser comparados com ele mas ele continuava em um nível bem maior que qualquer outro. […]. Isso (indicação ao Hall da Fama) é apenas um tributo ao quão grande ele foi. Ele jogou contra todos os melhores e ainda assim dominou. Eles nunca conseguiram o desacelerar. Sua atitude sempre foi: Dê o seu melhor e deixe o resto comigo. E ele conseguiu sucesso quase toda noite.” – John LeClair

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A união no gelo também era boa fora dele durante os 5 anos de Flyers. (Créditos: NHL.com)

1996-1997. Apesar de ter perdido 30 jogos na temporada, Lindros conseguiu marcar 32 gols e 79 pontos em 52 jogos. Em sua segunda temporada completa com o Flyers, John LeClair conseguiu outra jornada fantástica com 50 gols e 97 pontos. Janne Niinimaa e Eric Desjardins eram mortais comandando o powerplay, jovens como Dainius Zubrus e Vinny Prospal começaram a aparecer com algum destaque, o time tinha em Brind’Amour e Trent Klatt peças para tirar o peso ofensivo todo da linha de Lindros e eles funcionaram além de ter experiência de sobra com jogadores como Joel Otto, Paul Coffey e Dale Hawerchuk. De fato, Lindros e sua legião começaram a temporada mais lenta do que o normal com uma campanha de 50% no final de novembro, tudo mudou quando a equipe conseguiu uma sequência de 17 jogos seguidos sem perder e fechando a temporada com 103 pontos e 45 vitórias. Nos playoffs, a Legião do Inferno parecia mais poderosa e indestrutível do que nunca. Lindros, LeClair e companhia só precisaram de 15 jogos para despachar o Penguins de Mario Lemieux (que marcou seu último gol de playoff na primeira aposentadoria no jogo 4 dessa série), o Sabres de Dominik Hasek e o New York Rangers da dupla Gretzky e Messier para levar o Flyers a sua primeira Stanley Cup Final desde 1987, Lindros marcou 11 gols nesses 15 jogos e parecia destinado a ser o herói da conquista. Só havia um obstáculo entre a Legião e a Stanley Cup: O Detroit Red Wings

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Lindros e LeClair celebram gol contra o NY Rangers no jogo 5 da final da conferência leste de 1997, jogo que garantiu a equipe na SC Final depois de 10 anos. (Créditos: NHL.com)

Adversário errado. Hora errada.

No jogo 1, Joe Kocur e Kirk Maltby marcaram no 1* período em breakaways nascidos de erros defensivos. Mikael Renberg recebeu o disco de Lindros no meio do rink e disparou em um 3 contra 2 no final do powerplay, acompanhado de Coffey e LeClair, o camisa #19 achou o camisa #10 livre de marcação em seu lado esquerdo e o homem de 50 gols não falhou, 3-2 Red Wings depois de 40 minutos. O Flyers buscava roubar o momento do jogo no início do 3* período quando Steve Yzerman (tal qual Lemieux dois anos antes) ultrapassou a linha azul e disparou, Ron Hextall falhou e o jogo 1 era história. No jogo 2, Garth Snow assumiu o lugar de Hextall e antes que entrasse no ritmo da série já estava 2-0 para Detroit na metade do 1* período. O Flyers parecia roubar o momento do jogo e da série (ou pelo menos tentar pela segunda vez) quando a conexão point shot de Niinimaa e desvio de Brind’Amour funcionou duad vezes no powerplay para empatar o jogo em 2-2. E então lá veio Kirk Maltby e outro disparo de longe. Outra falha de Garth Snow. 2-0 Red Wings na série. No jogo 3, John LeClair colocou o Flyers na frente do placar (pela primeira e única vez na série) antes do Red Wings explorar toda e qualquer falha que Philly cometeu e golear por 6-1. Yzerman, Fedorov e Shanahan haviam criado sua própria legião. O golpe final da série veio no jogo 4, em outro chute de longe e outra falha de Ron Hextall, dessa vez saindo do stick de Nicklas Lidstrom. E então veio o último prego do “caixão”, Darren McCarthy entrou na zona ofensiva e tinha Niinimaa e Hextall a sua frente, o grinder do Red Wings driblou os dois como se não estivessem lá e empurrou o disco para o gol vazio. Lindros marcou seu único gol da série nos momentos finais. Steve Yzerman receberia a Stanley Cup que encerraria a seca da franquia enquanto Lindros receberia boa parte da culpa pelo insucesso de seu time nas finais mesmo com as lesões de Petr Svoboda (não jogou a série), Paul Coffey (não jogou as partidas em Detroit) e as condições ruins de Renberg (estava de muletas na manhã do jogo 4) e Dale Hawerchuk.

Vamos acelerar uma olimpíada, SEIS concussões e três anos.

2000. Final da conferência leste. Jogo 7.

Lindros sofreu quatro concussões entre o natal de 1999 e maio de 2000. Ainda assim ele conseguiu milagrosamente voltar para os playoffs daquele ano. O camisa #88 havia voltado na partida 6 quando o Devils empatou a série em 3-3 depois do Flyers abrir 3-1. Voltando ao jogo 7 e perdendo por 1-0 com gol de Patrick Elias, Lindros estava na zona neutra do rink com o disco quando tentou fazer um drible de corpo e abaixou a cabeça. Scott Stevens lhe acertou com um hit duríssimo e levou o camisa #88 ao chão. O Grande Eric caiu desacordado e teve de ser retirado de maca do gelo. Aquela foi a última partida de Lindros pelo Flyers. Depois disso, vieram as polêmicas com o medical staff do Flyers e uma disputa de contrato que fez Bobby Clarke lhe tirar o direito de ser capitão e depois lhe trocar para o Rangers. E depois disso chegaram as temporadas ruins, as passagens apagadíssimas por Maple Leafs e Stars, as lesões e por último chegou a aposentadoria precoce com 33 anos e 740 jogos na liga.

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O fim. (Créditos: NHL.com)

Lindros esteve do lado glorioso do esporte, vencendo dois ouros com a seleção sub 20 do Canadá, venceu a Canada Cup de 1991 com um dos melhores rosters da história do esporte e mesmo não sendo nem de longe o destaque que um dia foi, esteve com Pat Quinn (ironicamente, entrou para o Hall da Fama junto com Lindros, foi homenageado em memória) no time que encerrou a seca da seleção canadense em 2002. Lindros também esteve do lado “negativo” do esporte. Foi apontado como principal culpado do fracasso canadense na Copa do Mundo de 1996 mesmo tendo jogado todo torneio com a mão lesionada. “Lindros derruba a tocha” foi a chamada do Montreal Gazette após a derrota no jogo 2 desse confronto. Um ano depois, Lindros falhou na missão de trazer a copa de volta para Philadelphia tendo como a marca dessa “falha” os gritos eufóricos de “perdedor” toda vez que #88 tocava no disco no jogo 4. Menos de um ano depois e Lindros foi capitão e principal crucificado da seleção canadense que falhou em bater Dominik Hasek e os tchecos em Nagano-1998, tem quem diga que Lindros nem merecia estar onde entrou na última segunda.

Entre 92-93 e 99-00, apenas Mario Lemieux (2.11) e Jaromir Jagr (1.45) tiveram um percentual de pontos por jogo maior que Eric. Durante seu topo, ninguém o superou. Lindros combinou tamanho, força, velocidade, personalidade e qualidade, isso tudo lhe fez um dos jogadores mais singulares da história. Apesar das lesões e da aposentadoria precoce, das duras e não merecidas criticas, finalmente a vida lhe fez justiça. Como disse John LeClair, Eric Lindros finalmente está onde ele merece.

Quem diria. O líder da Legião do Inferno, alcançando o céu do esporte.

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