Hóquei, Milagre, Glória e Liberdade

O hóquei no gelo tem muitas histórias interessantes de superação e luta dentro de sua existência relativamente curta se comparada a outros esportes como seu irmão milenar hóquei de campo. O que é a decepção de um é a glória de outro, assim funcionam os esportes e para quem vê tudo sem as expectativas muitas vezes a zebra é o melhor resultado, as zebras fazem algumas das melhores histórias não só no hóquei no gelo, mas nos esportes em geral. Existe algo quase que mágico quando as expectativas do óbvio são quebradas e o não esperado acaba surpreendendo e construindo um final diferente do esperado, é assim nas histórias reais e nas ficções, as duas não são tão distantes quanto parecem porque vem da mesma fonte no final das contas, vem da capacidade humana.

A história a ser contada aqui começa no dia 15 de junho de 1991, na cidade de Birmingham na Inglaterra. Naquele dia a prefeitura de Nagano venceu Salt Lake City (Estados Unidos), Östersund (Suécia), Jaca (Espanha) e Aosta (Itália) e acabou escolhida como sede dos jogos olímpicos de inverno em 1998. O primeiro detalhe histórico e muito importante para a se contar essa história é que essa Olimpíada seria disputada quatro anos após os jogos de Lillehammer, na Noruega. Anteriormente os jogos olímpicos de inverno eram realizados a cada dois anos e, por diversos fatores, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu transformar em um evento realizado a cada quatro anos.

Essa mudança de período entre as edições auxiliou o acordo entre COI e NHL para a participação de seus jogadores nas Olimpíadas. Desde 1988 os jogadores profissionais foram permitidos, mas a NHL não queria ceder seus atletas durante a temporada, tendo que fazer isso a cada 4 anos, ao invés de 2, ajudou a finalizar esse processo de profissionalização das seleções olímpicas. Um acordo fechado em 1996 entre o COI, IIHF (federação internacional de hóquei no gelo), NHL e NHLPA (associação de jogadores da NHL) garantiu que os jogadores da principal liga de hóquei no mundo pudessem disputar as olimpíadas, isso elevaria o nível dos jogos para algo nunca visto antes.

Então pela primeira vez na História o torneio olímpico de hóquei no gelo contaria com jogadores profissionais de todas as ligas, a expectativa de verem alguns dos melhores jogadores daquele século fez com que recebesse o apelido de O Torneio do Século, e assim foi. Mas não era a única novidade na modalidade, pela primeira vez a Olímpiada teria também um torneio feminino de hóquei no gelo, com essas duas grandes novidades no hóquei no gelo e outras mais, os jogos Olímpicos de Nagano prometiam serem históricos. É muito importante ressaltar que o torneio feminino foi um sucesso, os Estados Unidos saíram com o ouro, o Canadá a prata e a Finlândia o bronze, foi um torneio simples, mas que garantiu o espaço das mulheres. Com tudo esse não é objetivo aqui, o objetivo é contar a história da seleção masculina da República Tcheca e tudo que a cercava.

Voltamos para o ano de 1993, o país antes chamado Tchecoslováquia decide se dissolver após acordo das duas federações que a compunham. Assim República Tcheca e Eslováquia pacificamente se separam, dando fim a uma longa história que remonta os princípios do império Austro-húngaro, passa por domínio alemão durante a segunda guerra mundial e por grandes influências do governo soviético. Mesmo tchecos e eslovacos sendo muito próximos em muitas questões, sempre foram dois povos diferentes e que finalmente poderiam ter cada um seu país próprio e soberano.

A República Tcheca conseguiu um bom ranking dentro da IIHF, em 1994 ficou em quinto lugar, um desempenho dentro do esperado. Para 1998 estava classificada de modo automático junto a Finlândia, Suécia, Canadá, Estados Unidos e Rússia, as duas vagas restantes vieram num torneio qualificativo em que Cazaquistão e Bielorrússia se classificaram para as Olimpíadas. O sorteio colocou a República Tcheca no grupo de Rússia, Finlândia e Cazaquistão, o formato do torneio fazia com que todas as seleções chegassem as quartas de final, porém quanto melhor sua classificação na primeira fase, tecnicamente mais fraco seu adversário seria.

Os tchecos venceram a Finlândia e o Cazaquistão, no último jogo perderam para a Rússia por 2-1 e terminaram a primeira fase em terceiro lugar no grupo. Para as quartas de final teriam os Estados Unidos pela frente, uma das três seleções apontadas como favoritas a medalha de ouro, junto ao Canadá e a Suécia. A República Tcheca era, junto a Rússia e Finlândia, era pouco cotada para uma medalha naquelas olimpíadas, canadenses, americanos e suecos tinham plantéis estelares enquanto tchecos, finlandeses e russos não eram considerados tão fortes mesmo tendo grandes jogadores. Os americanos chegaram como grandes favoritos para o jogo, liderados por Brett Hull e com Pat LaFontaine, John LeClair, Mike Modano, Chris Chelios, Brian Leetch e Mike Richter, além de outros bons jogadores, o que a República Tcheca poderia fazer contra tal poder?

A resposta era simples: vencer. O grande favorito não mostrou ao que veio naquele dia, os tchecos sim, foi um passeio completamente inesperado e que deixou a primeira marca naquela Olimpíada. Jiri Dopita, Jaromir Jagr, Martin Rucinsky e Vladmir Ruzicka anotaram os quatro gols para a República Tcheca, Mike Modano foi o único a marcar um gol pelos Estados unidos. Final: República Tcheca 4-1 Estados Unidos. Com uma grande atuação também do goleiro, Dominik Rasek, com 38 defesas naquele jogo, o que minou o ataque americano, Rasek foi um fator importantíssimo naquele jogo, como seria por toda a campanha da seleção nas Olimpíadas. Os tchecos chegaram as semifinais derrubando um dos favoritos, mas pela frente teriam o poderoso Canadá. Do outro lado da chave, a Rússia passou facilmente pelo Cazaquistão por 4-1 e a Finlândia venceu sua arquirrival Suécia por 2-1, os dois gols de Teemu Selänne.

A seleção canadense era liderada pelo maior jogador de hóquei sobre o gelo. Wayne Gretzky disputava sua primeira e única Olimpíada, ele se profissionalizou antes de poder jogar e sonhava com o ouro, aquela era sua chance. Gretzky liderava uma equipe que contava com Rod Brind’Amour, Paul Kariya, Joe Sakic, Brendan Shanahan, Steve Yzerman, Ray Bourque, Eric Desjardins, Scott Stevens e tinha dois dos melhores goleiros de todos os tempos: Patrick Roy e Martin Brodeur.  Não bastassem esses, haviam outros ases e o que os americanos chamariam de “black aces” como Trevor Linden, Joe Nieuwendyk, Adam Foote, além do polêmico Rob Zamuner. Zamuner foi a grande controvérsia na convocação, ele tomou o lugar de Mark Messier na lista de Marc Crawford. Desde o começo a imprensa americana e canadense apontaram como um erro muito grande a falta de Messier no time e a história provou que estavam certos.

O que a República Tcheca precisaria para vencer o Canadá e seu elenco de proporções titânicas era de um milagre. Milagres acontecem a quem se fazem merecer, eles não caem do céu, você precisa luta por um milagre, colocar toda sua vontade e esforço nisso, e era isso que os tchecos fariam. Por duas vezes na história das olimpíadas anteriormente haviam acontecido milagres no gelo, a primeira foi em 1956 em Cortina d’Ampezzo, na Itália, quando os Estados Unidos venceram o Canadá e conseguiram a medalha de prata. O segundo é o mais famoso de todos, a vitória americana sobre a União Soviética em 1980 na final do torneio olímpico, fizeram documentários, filmes dramáticos, livros e muitas outras coisas sobre esse momento. Para vencer o Canadá a República Tcheca precisava construir o terceiro milagre no gelo olímpico, essa era a única solução.

Na noite do dia 20 de fevereiro de 1998 Canadá e República Tcheca entraram no rinque para disputar a semifinal do torneio masculino de hóquei no gelo. Era manhã no Canadá e no Brasil, onde tive o prazer e o privilégio, acima de tudo, de ver a História ao vivo. Foi um jogo muito disputado, o equilíbrio veio de modo inesperado e tanto Dominik Hasek quanto Patrick Roy brilharam. O placar ficou zerado pelos dois primeiro perídos, os goleiros conseguiram parar os ataques adversários e o jogo começava a se tornar um impasse, mas aos 9 minutos e 46 segundos do terceiro período Jiri Slegr conseguiu superar Roy e colocou os tchecos a frente. O Canadá veio com todo seu poder, mas parecia impossível superar Rasek aquela noite, com tudo a persistência e perseverança canadense foi recompensada aos 18 minutos e 57 segundos quando Trevor Linden marcou o gol de empate. Com o empate por 1 a 1 nos 60 minutos regulamentares, uma prorrogação de 10 minutos foi disputada e após mais um show dos goleiros o jogo teve que ser definido no temido shootout.

Em 1998 o shootout não era uma prática comum, era usado apenas nos torneios internacionais e mesmo assim não havia muita necessidade de acontecer. Era a primeira vez que muitos daqueles jogadores teriam que participar desse tipo de disputa e numa noite em que os goleiros estavam tendo o destaque aquele procedimento era um verdadeiro pesadelo. Theo Fleury abriu a sequência e foi defendido por Hasek, Robert Reichel superou Roy e marcou um gol, o que seria o único gol daquela disputa, o gol que garantiu o milagre. Rasek ainda enfrentou Ray Bourque, Joe Nieuwendyk, Eric Lindros e Brendan Shanahan, nenhum deles conseguiu superar o Dominator, ficam aqui as palavras do lendário narrado Bob Cole: “Esse cara é humano?” (em tradução livre). O milagre estava completo, o Canadá foi derrotado. Ao final ficou uma das imagens mais marcantes do torneio olímpico de Nagano: Wayne Gretzky sentado sozinho no banco de reservas olhando desconsolado para o gelo enquanto segurava as lágrimas, a chance do Great One de conquistar o ouro havia acabado, o sonho estava morto. Usando as palavras de Harry Neale, comentarista da CBC: “Não queremos isso (o shootout) na NHL, é muito excitante.” e depois: “Tão quão excitante é o shootout, é uma maneira frustrante de perder.” (traduções livres), anos mais tarde a liga adotaria a prática para definir vencedor em jogos de temporada regular.


O shootout que definiu o finalista

gretzky_jagr_-kathy-willens
Jagr e Gretzky se cumprimentam após o triunfo tcheco no shootout (Foto: Kathy Willens)

O milagre tcheco veio, mas a Olimpíada não acabava ali, havia a final. Na outra semifinal a Rússia passara pela Finlândia por 7-4, com 5 gols de Pavel Bure, a grande estrela do time. O destino colocaria russos e tchecos frente a frente novamente, seis dias antes os russos haviam vencido o confronto na primeira fase, mas agora os tchecos poderiam dar o troco. Enquanto isso, a disputa do bronze terminou com uma vitória finlandesa por 3-2 sobre o Canadá, que estava visivelmente abatido e frustrado pela derrota no shootout, essa vitória da Finlândia fez com que nenhum dos três favoritos ao ouro conseguisse uma medalha se quer e que as três seleções consideradas secundárias saíssem de Nagano com as três medalhas. Mas ainda faltava um embate final, onde hóquei no gelo e História entrariam em jogo, em mais de um sentido.

Em 1948 a influência da União Soviética sobre a Tchecoslováquia após a segunda guerra mundial se consolidou e o país entrou para o bloco de países da Cortina de Ferro. Era um Estado que vivia sob a tutela russa, mas tinha certa independência e isso durou vinte anos, em 1968 a Tchecoslováquia tentou atravessar a Cortina de Ferro deixando as influências russas para trás, porém as forças do Pacto de Varsóvia dominaram o país em poucas horas e transformaram a Tchecoslováquia num prisioneiro do sistema soviético. Presa pelos grilhões da ocupação liderada pela Rússia, a Tchecoslováquia passou os próximos 21 anos sob a tirania do sistema soviético, mas tudo chegou ao fim em 1989. Em uma sequência rápida de acontecimento no final de 1989, a chamada Revolução do Veludo ou Revolução Gentil, pôs fim ao regime soviético no país, de forma totalmente pacífica os grilhões foram soltos, um futuro de liberdade e democracia estava a frente. Então em 1993 aconteceu o chamado Divórcio de Veludo, uma separação amigável entre as partes tchecas e eslovacas.

As marcas do regime russo, que havia terminado há menos de dez anos, ainda viviam na população, os jogadores da República Tcheca em Nagano 1998 haviam nascido sob o regime soviético, passaram dificuldades por isso, ouviam histórias de seus pais, avós, tios e irmãos sobre a tirania russa, agora eles tinham a oportunidade de dar o troco. O Torneio do Século terminaria no dia 22 de fevereiro de 1998, era a oportunidade de levar o primeiro ouro para a República Tcheca, bater os russos e cravar o nome na História.

Foi uma batalha campal no rinque da Big Hat Arena, as duas defesas seguraram os bons atacantes que os dois lados possuíam. Mikhail Shtalenkov e Dominik Hasek impediram muitos gols de acontecerem por dois períodos, ninguém queria perder, ninguém queria sair com a prata, todos queriam vencer o Torneio do Século. Aos 8 minutos e 4 segundos do terceiro período, após um icing russo, Pavel Petra vence um faceoff na zona ofensiva, o puck fica com Martin Prochazka, que passa para Petr Svoboda. Svoboda faz a leitura, vê o espaço e dispara no alto, Shtalenkov não teve chances, o narrador tcheco e a torcida assistindo por telões na Praça da Cidade Velha, em Praga, explodem em emoção. A República Tcheca faz 1-0 e segura o resultado até o final. O inesperado acontece novamente e de forma muito simbólica, o gol que valeu a medalha de ouro foi marcado por Svoboda, que é Liberdade em tcheco, um gol sobre o antigo dominador daqueles jogadores e suas famílias. A batalha campal termina com vitória Tcheca, os jogadores comemoram, o país para celebrar, o Torneio do Século termina com uma glória que ecoou e ecoará eternamente.


O gol libertador de Petr Svoboda

Os 23 homens que fizeram história nos gelos japoneses conquistaram a glória máxima para um atleta, deram a volta por cima sobre a Rússia e deram o toco histórico de modo pacífico, foi um ponto final na revolução pacífica que modificou o país. O dia 22 de fevereiro de 1998 entrou para a História do país como um dos momentos mais importantes e é o mais importante nos esportes. O esporte é um pedaço da sociedade, ele não está acima e nem além, como muitos pensam, ele faz parte de algo maior e são momentos como o gol de Petr Svoboda que demonstram isso, que não se pode dissociar esporte e sociedade. Grandes histórias são contadas no cinema, com roteiros que parecem piegas, muitas vezes pensamos que os finais felizes são coisas de cinema, mas a seleção de hóquei no gelo da República Tcheca, entre tantas outras equipes de diversos esportes ao logo do tempo, provou que a história real pode ser inacreditável. Um roteiro fictício com os mesmos acontecimentos seria clichê e piegas e aí onde mora a beleza dessa história: ela aconteceu de verdade.

original
Os medalhistas de ouro (Foto: Eduard Erben)

Bônus
Final olímpica completa: narração inglesa / narração tcheca

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s